quarta-feira, 14 de junho de 2017

CARTA A UM VELHO AMIGO DO CURSO DE DIREITO

Ipatinga, 13 de junho de 2017.

Querido Amigo,

José Lucas, 

Ensaio sobre anestesia psíquica: um estudante de Direito e a patologia da alteridade.

Creio que nenhum conselho é demais quando destinado a um amigo do peito. Através desta carta, como os muitos ensaios de Montaigne a seu amigo Étienne de La Boétie, compartilho um pouco da pequena experiência que tive, e acredito que esteja vivendo durante o estudo desta majestosa ciência.
Nos cinco anos da graduação de Direito, mais acentuadamente nos últimos anos, passei por situações inéditas e me peguei refletindo sobre minha saúde psíquica e como esta situação refletia no meu comportamento social. Percebi, meu querido amigo, ao me debruçar sobre meus pensamentos e atos, que acabava por fazer uma autoanálise sobre minha condição e espero que isso tenha servido como forma de melhoria enquanto pessoa e, espero que lhe sirva para algum crescimento, ou na pior das hipóteses uma futura homenagem fúnebre ao seu velho amigo que lhe escreve. Trata-se da velha questão de conhecer a si mesmo, talvez eu devesse ter prestado mais atenção nessa frase nos primeiros dias de curso, enquanto estudava Sócrates durante as aulas com as matérias que você demonstrou serem de singular importância, as matérias propedêuticas.
Resolvi escrever um ensaio. Sim, um ensaio, pois mesmo sabendo da sua compreensão e incentivo, entre os gêneros literários não encontrei outro que me permitisse expressar o que sinto sem temer críticas, sejam positivas ou negativas. Um ensaio é um ensaio. Sem me apegar a redundâncias, o ensaio é algo inacabado, passível de alterações e aprimoramentos que ainda hão de vir, o tempo se encarregará disso. Ocorre que o primeiro dilema, não bastasse o próprio dilema do conteúdo deste ensaio, foi escolher um título, algo que chamasse a atenção, que te instigasse e identificasse.
A princípio pensei em algo como “o dilema da alteridade” ou “a cultura da indiferença”, mas não sei por qual razão, optei por utilizar algo relacionado ao narcisismo, não como sentimento ou característica, mas sim como defesa diante das adversidades encontradas. Parece complexo em um primeiro contato, mas é simples, como será demonstrado. O que importa é que o título ficou assim, busquei inspiração na psicanálise, pois foi ferramenta fundamental para que eu saísse daquele fundo de poço que me levaram os cinco anos de graduação.
Não, ainda não tenho formação em psicanálise e você sabe disso. Por este motivo volto a enfatizar, foi este o motivo que me levou a optar por um ensaio. Acontece que ao ler textos sobre o assunto me deparei com uma parte de mim difícil de reconhecer sozinho. Nós acadêmicos de Direito temos a má fama, principalmente durante a graduação, de nos achar detentores de notório saber ou da ciência divina, muitas vezes realmente somos, dentro de nossas limitações humanas. Pobres mortais, a arrogância e o ego inflado são ingredientes facilmente encontrados ao se dissecar um estudante de Direito, permita-me nos incluir neste seleto grupo e nos orgulhemos disso.
Nos últimos anos do curso fui surpreendido com uma competitividade assustadora, talvez você já esteja vivenciando. Muitos dos meus colegas de classe se demonstraram exímios predadores competitivos e confesso que me incomodou, mas isso é assunto para outra conversa. Entretanto, além de me causar náuseas, estas experiências influenciaram a alimentação da minha patologia, que aqui ouso chamar de “a patologia da alteridade”. Consiste na rejeição do outro como forma de afirmação do eu. Em outras palavras, a pluralidade de pensamentos, opiniões e posicionamentos, bem como atitudes, me levaram a um estágio onde era mais cômodo não se interessar pelo que o outro tinha a oferecer, por já presumir onde aquilo levaria. Não me culpe, descobri que é uma defesa, como dito linhas atrás, uma defesa para essa patologia social. O mesmo acontecia com os livros, acreditava não precisar ler, pois pelo título já presumia que o final não seria tão bom. Não queria saber outras opiniões ou não dava a mínima para as que eu ouvia, pois, por serem outros e não eu, já presumia que não era bom. A diversidade me levou a indiferença. Tudo aquilo que não se parecia comigo não me servia. Trata-se de uma espécie de anestesia psíquica, outros chamariam de comodismo.
Diante das diferenças, encontrei na indiferença uma forma de me proteger e resolvi denominar esta forma de exceção (defesa) de “o método da esquiva”. Na linguagem popular, seria o mesmo que evitar a fadiga. Assim, deixei de ter novas relações, fiz restrições no meu gosto por livros, deixei de escutar novas opiniões e de conhecer pessoas, pois já presumia o que posso esperar destas experiências. Hoje, confesso que era mais fácil me esquivar, do que enfrentar as agruras de experiências contrárias ao meu gosto. Pode ser interpretado também como medo das reações que podem surgir dentro de mim diante de um fato estranho. Consequentemente, o meu eu foi se inflando ao mesmo tempo em que diminuía todas as singularidades de identidades diferentes de mim. Como consequência, acredite nisto meu amigo, o mundo também vai se diminuindo e as possibilidades também. Chega-se, por fim, a reclusão, solidão.
Ao longo de uma longa autoanálise que durou alguns meses e ainda persiste, percebo que o Eu do futuro deveria ser um Eu que ultrapassou desafios e enfrentou diferenças, pois caso contrário, o Eu do futuro será o do presente, apenas em mundos externos diferentes. Sim, é necessário se expor aos conflitos, imergir nos problemas dos outros e fazer deles nossos problemas. A troca de experiências é essencial para a dinâmica do meu Eu. Não é questão apenas de altruísmo, mas sim de ser plural. Concluo percebendo que existem motivos egoístas para me misturar com os outros diferentes de mim, mesmo que sejam opiniões e gostos absurdamente ridículos em uma primeira análise, pois é nessa mistura que nasce o Eu futuro e qualquer coisa poderia ser considerada melhor que o Eu de agora.
Sinto saudade das conversas ricas em conhecimento que Vossa Excelência, meu amigo, proporcionava nos diminutos tempos que nos esbarrávamos pelos corredores de concreto desta Instituição de Ensino Superior. Desejo-lhe que domine seus próprios demônios e que você saia melhor do que já é da luta contra as adversidades encontradas no caminho, não tão reto, do Direito. Por fim, deixo-lhe um ultimo apelo. Não deixe morrer o sonho impúbere de anos atrás, que o prato onde repousa a Justiça seja mais pesado que o prato onde pulsa a Lei. Nesta nossa missão nos é vedado o fracasso, nos é vedada a deserção, só nos resta vitória!

Abraço,
De seu amigo,

Pedro Bragança

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