sexta-feira, 11 de julho de 2014

Novelo de idéias

Que dificuldade! Como é difícil passar o sentimento para o papel. Às vezes acho que é algo impossível, e de certa forma é. Peguei o papel, peguei a caneta, coloquei uma música no computador, nem muito alta nem muito baixa, o bastante para se confundir com meus pensamentos, e se confundiram.
Talvez essa confusão tenha atrapalhado na escrita, talvez tenha ajudado, mas por precaução, antes de escrever eu tenho que me esforçar para desembaralhar os pensamentos, é um processo muito complicado, é como um caça-palavras mental, como se estivesse desembaraçando uma linha de soltar pipa, mas essa linha é formada de letras, silabas, fonemas, envolto nessa linha está o joio, preciso separá-lo do trigo, retirar algumas palavras, às vezes retiro algumas manias. Isso eu faço contra a minha vontade, sou totalmente contra isso, afinal essas manias transformam o simples texto em “meu texto”, não importa se está ruim ou bom, até porque isso é uma questão de ótica e de interpretação, o que importa é que posso chamá-lo de meu, e as pessoas que possuem as mesmas manias também chamarão de seu.
Conseguir desembaralhar um texto é uma tarefa árdua, quase uma batalha, e deve ser lutada com garra, pra ser vencida com honra. Pego uma palavra pelo pescoço, aperto até ela quase perder a consciência, acontece que algumas palavras são agressivas e traiçoeiras, se você não for rígido e assumir o controle, ela te derruba, ou machuca alguém. Essas palavras são as piores, mas é preciso utilizá-las para que não tenha distância entre o que eu sinto e o que eu escrevo.
No geral todo escritor é uma pessoa apaixonada. Logo, toda pessoa apaixonada é um escritor? Talvez sim, talvez não. A paixão é uma pinça, uma peneira ou qualquer outra ferramenta ou forma de selecionar as palavras que serão utilizadas, assim como o ódio também é. O ódio, assim como o amor, decanta a escória das palavras deixando a vista apenas aquelas que condizem com o sentimento ou com o momento.
Depois de desembaralhar e colocar em ordem, gastar a tinta da caneta e aplicar uma boa dose de concordância (não concordância gramatical, mas sim concordância com o que sou, com o que faço e com o que sinto), eu fico atônico enquanto corrijo, às vezes escapa um sorriso enquanto passo à limpo, fico bobo como um pai que pega seu filho no colo pela primeira vez, meio desengonçado ao ler, mas ainda sim feliz como uma criança por ter desembaraçado a linha das palavras e assim poder voltar a soltar pipa.



Pedro Bragança

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