domingo, 15 de junho de 2014

Que assim seja

Por que escrever? O que pretendemos quando falamos ou escrevemos sobre determinado assunto? A verdade é que ao escrever posso ser o que quiser, posso ser o mocinho o vilão, o bom cidadão, o vizinho do mal, posso ser mulher ou posso ser homem, o legal de escrever é que o universo é ilimitado, as possibilidades infinitas. Posso escrever para cinco mil pessoas lerem, isto seria ótimo, mas posso escrever para cinco com a mesma emoção, desde que essas cinco sintam o que eu senti quando escrevi, estarei realizado.
Alguém já sentiu tristeza a se ver de mãos atadas vendo o sofrimento de alguém?
Ver uma senhora, uma mãe chorando por perder um filho para o mundo?
Hoje posso dizer que sim, presenciei em uma audiência uma senhora em desespero por não conseguir pagar uma divida com uma escola de pré vestibular que o filho dizia frequentar. Resumidamente o filho que usava drogas e já havia agredido a mãe varias vezes chegou pra ela certo dia e pediu desculpas, disse “mãe, eu quero mudar, me perdoa por tudo que eu já te fiz, agora quero ser motivo de orgulho, quero trabalhar e estudar, pretendo fazer faculdade e sair desse mundo.”
Agora me diz, qual mãe não atende o pedido de um filho? Qual mãe não se entrega a simples esperança de ver seu filho no caminho certo? Qual mãe? Me diz?
A mãe que nunca acreditou e botou a mão no fogo pelo filho fique a vontade e atire a primeira pedra.
Essa acreditou como tem que ser, e o filho saía no horário do curso e voltava aproximadamente no horário certo, certa vez atrasou, chegou bêbado e drogado, parecia não ser o mesmo, não tinha nada que lembrasse aquele filho gerado nove meses, criado como a criatura mais importante, protegido, bajulado, talvez faltasse Toddy uma vez ou outra, talvez não tivesse o Danone e muito raramente espremia um pouco a receita da casa pra trazer um chocolate, mas carinho e amor não faltou, os maiores alimentos da alma não eram escassos ali, talvez por parte de pai sim, mas daquela senhora o filho tinha todo o afeto do mundo, mas nesse dia esse filho bateu e espancou sua mãe que chegou a ficar internada por quinze dias por causa da agressão, e quando foi ver ele não estava indo ao curso preparatório, mas sim se enveredando novamente no mal caminho. Pode ter acontecido dela falhar na presença, falhar na curiosidade com as amizades na fiscalização, afinal trabalhava arduamente para sustentar sozinha a casa, nisso pode ter falhado, mas ninguém é perfeito, fiquem a vontade para atirar mais pedras quem for e guardem um pouco para atirar em mim também.
Pois bem, não é fácil confortar o coração de uma pessoa desconhecida, não é fácil ver uma mãe chorando e não imaginar a sua mãe naquela situação, não é nada fácil presenciar isso e não chorar.
Chorei, chorei em silencio, chorei por dentro, minha alma chorou e choro agora. Mas que eu possa escrever sobre isso, que eu possa passar o sentimento para o papel, que o sentimento saia do papel irradiado pala luz que vai de encontro a alguma retina curiosa, que essa retina leve as letras ao cérebro e que essa massa cinzenta se encarregue de agrupar em palavras, de ordenar essas palavras em frases, que essas frases virem parágrafos e que no fim todo o texto se converta novamente em sentimento, que esse sentimento percorra o corpo em forma de eletricidade e por onde passar que faça arrepiar, que cause calafrios e que chegue ao coração, não o coração víscera, o coração sentimento, aquele coração que vai bombear para as pessoas com quem o querido leitor irá se encontrar, entre essas pessoas pode incluir a criadora desse leitor, sua mãe, sua gestora ou que seja sua criadora, que esse leitor olhe para sua mãe com a mesma retina com que captou o sentimento e que esse mesmo sentimento sirva de energia cinética que fará movimentar os braços que abraçarão. Que esse sentimento encontre uma brecha de saída vibrando pelas cordas vocais e que se traduzam em um limpo e sonoro “eu te amo”. Que assim seja.



Pedro Bragança

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