sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pós dia dos namorados


Dia dos namorados me faz lembrar como tudo começa. Não estou falando sobre quando nos apaixonamos, pois isso eu lembro o tempo todo, mas do momento de ir à casa dos pais pedir a mão em namoro. Pode parecer brega essa tradição de ir pedir a mão em namoro, e realmente é, mas quem disse que o brega não é bom? Num mundo onde os namoros se iniciam com uma mudança de status em rede social e terminam com um bloqueio da pessoa na lista de contatos.
Ainda mais nos tempos atuais onde essa prática de ir até a casa da moça e conversar com seus pais ficou tão obsoleta. Pronto, lembrei-me de outra coisa intrigante, antigamente o rapaz ia e pedia a mão da moça para seu pai. Hoje em dia isso me parece meio que machista e preconceituoso, porque não a moça ir até a casa do rapaz e conversar com sua mãe? E tem que ser com o pai?
Não importa se é o rapaz que vai, se é a moça, se é para o pai ou para a mãe, eu defendo com unhas e dentes essa tarefa desconcertante que é pedir a mão da namorada. A situação é meio que vergonhosa, mas chega a ser uma passagem na vida do casal. Olha pra você ver, para chegar ao ponto de enfrentar os pais da pretendente tem que estar realmente amando ou pelo menos deveria estar. Não é nada fácil chegar à casa de desconhecidos, sentar em uma posição desconfortável de tão educada, tentar aparentar mais sério do que é de verdade, pois tem que mostrar que tem responsabilidade e não está lá pra brincar com o futuro da filha dele, e ainda por cima procurar falar de coisas que não está acostumado, como por exemplo, o resultado do ultimo jogo do time da cidade, ou uma reportagem sobre a guerra na Síria que passou nos noticiários na ultima semana.
Outra coisa, o futuro sogrão com certeza não vai facilitar, afinal sua filha nunca namorou antes, e ele está com o que eu chamo de miopia bi ocular crônica paternal, que nada mais é do que o fato de o pai enxergar a filha, já moça e pronta pra namorar, como uma pequena criança recém-nascida. Por sofrer dessa enfermidade o pai, e futuro sogro, irá demorar um pouco para aceitar aquele rapaz que mal consegue falar de tão nervoso, que mal tem barba no rosto, e que está sentado em seu lugar do sofá. Uma coisa que ajuda nessa aceitação são as lembranças da época que ele ocupava aquele lugar no sofá na casa dos pais de sua atual esposa.
O futuro sogrão depois de pensar bastante, fazer caras e bocas de seriedade, e se mostrar um pouco mais rígido do que realmente é, se vira para o rapazinho e pergunta:
- Chega de enrolarão, o que você veio realmente fazer aqui em minha casa?
O rapaz engole seco e pensa “é agora, coragem, você é um homem ou um rato?”, não sei por que, mas bate uma vontade desgraçada de comer um pedaço de queijo minas... Mas ele toma coragem estufa o peito e fala, em voz baixa, mas fala:
- Eu vim pedir a mão de sua filha em namoro!
O pai reflete, tenta não rir, tenta demonstrar incerteza, afinal não quer que seja fácil assim, depois de longos segundos, que para eles naquele ambiente pareciam uma eternidade, ele dá o veredicto:
- Mas porque a mão? Se você tem dela todo o restante do corpo? Tem a atenção, o amor e o sorriso, que há muito tempo eu venho admirando temendo que essa hora chegasse. Faremos o seguinte, eu deixo que namorem e deixo que fique com tudo, mas a mão não, a mão será minha, eu quero ficar com a mão, e segurarei firme, pois quando ela se sentir insegura ou menos amada nessa aventura e resolver voltar eu posso puxá-la novamente pra perto de mim.

A filha na outra ponta do sofá caiu em lágrimas. A mãe, que servia um café, se desconcertou um pouco com as xícaras. E o rapazinho, ah... ele simplesmente concordou com a cabeça e um firme aperto de mão, não disse nada, nem se quer um sorriso, nem um “não vou decepcionar”afinal, que pecado seria estragar uma declaração de amor de um pai à sua filha.


Pedro Bragança

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