domingo, 22 de junho de 2014

Luz, camêra e ação

Luz, câmera, ação. Mas não qualquer ação, não qualquer luz. Luz que vem de dentro, a luz que muda o mundo, luz que cativa, que incomoda, que alegra e muda quem é iluminado por ela. É a luz do gesto fraterno, luz que emana daquele que dá sinal pra você no ônibus quando suas mãos estão ocupadas segurando seus livros de escola, essa mesma luz gruda no seu corpo, sei lá, parece que acende uma vela dentro de você, vela da boa educação e cordialidade, você sai do ônibus e enxerga melhor as pessoas e suas necessidades, passa a ajudar mais, fica mais gentil. Ação, à luz da caridade toda ação é iluminada, ação, movimento, fico pensando que bom seria se as boas ações fossem automáticas, imagine só, movimentos peristálticos, você vê uma pessoa triste, daí chega perto com sua luz e não se afasta enquanto não arrancar um sorriso. Vê alguém com fome e pedindo dinheiro para viajar pra sua terra natal em algum lugar na grande São Paulo, e você não pensa duas vezes vai lá e paga um lanche com medo do dinheiro ser usado pra comprar drogas. Mas a droga da desconfiança, a droga do preconceito, a droga da discriminação e a droga da falta de fé nas pessoas, essa nós somos viciados e consumimos em larga escala, contrabandeada do íntimo de nossos corações. Você tem que ver alguém com a luz apagada e imediatamente se movimentar, "chegar junto", se dispor a serviço daquela lâmpada que precisa de eletricidade, ou simplesmente daquele ser que precisa de atenção.
"-cada pessoa tem de mim o que cativa!"
Se você fala isso, me diz o que tem cativado nas pessoas? Ou melhor, o que tem cultivado?
Acho que algumas pessoas falam desse assunto com mais propriedade, eu pessoalmente tenho pensado muito em mim e pouco nos outros, isso não é bom, admito.
Eu vi um menino de rua vendendo bala no sinal, fiquei ali cinco minutos atônico pensando onde está o Estado, que mesquinho eu fui, fácil botar a culpa no Estado e ficar ali naquele ponto de ônibus parado sem atitude, sem ação, sem luz.
Vi quando uma senhora passou à pé próxima àquela criança e firmou a bolsa com a mão embaixo do braço, outro passou de mãos dadas com o filho pequeno e acelerou o passo puxando o pequeno pelo braço só pra não precisar dar explicações ao filho sobre o porque de ter crianças na rua ou talvez fosse só pra não comprar balas, talvez seu filho tinha acabado de escovar os dentes. Eu ali parado apenas imaginando o porque daquelas reações, estava ali naquele ponto de ônibus, parado, como o "bacana", ocupado demais com minha vida pra poder fazer algo pela criança de rua. Mas entre tanta discriminação, tanto medo e rejeição no olhar do pacato cidadão, pai de família que avistava o menino no sinal e subia o vidro do carro, eu vi algo que ascendeu um pouco aquela vela anteriormente mencionada. O vidro abaixou e atrás daquela película cinzenta das janelas escuras de um scort, apareceu um sorriso, aquela distancia parecia que tentava olhar nos olhos da criança, tarefa difícil visto que, ficava incessantemente olhando para baixo, me surpreendeu quando esticou a mão para fora do carro e pegando no queixo daquela criança, levantou sua cabeça, ela se assustou quando recebeu daquele motorista um pouco de carinho, se assustou um pouco menos quando o viu pegar no banco carona um salgado e uma coca-cola, agradeceu e saiu correndo provavelmente, eu suponho, pra dividir com algum irmão de rua, corria e pulava muito, mas daquele ponto de ônibus eu pude vê-la sorrir pela primeira vez, e eu sorri com ela! Ah se eu soubesse que o segredo da felicidade estava ali, nos pequenos detalhes.




Pedro Bragança

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