quarta-feira, 18 de junho de 2014

E se foi, e se foi.

- Sou diferente dos outros - disse enquanto dividia o olhar entre os olhos e a boca dela. -Podemos dar muito certo, só precisa dizer sim.
- Você diz isso a todas.-
Realmente ele dizia a todas, mas com ela era diferente. Era a primeira vez que era verdade. O problema era exatamente isso, dessa vez era verdade e, por ser a primeira vez, ele não tinha argumentos que a fizesse acreditar, ele mesmo demorou a se convencer que era verdade.
Passaram-se dois, três, quatro, cinco segundos... O tempo parecia avesso, às vezes travesso, lhe pregava uma peça atrás da outra, ele que nunca tinha ouvido falar em Einstein sentia na pele a teoria da relatividade. Era como se ali, dentro daquele carro, os dois ultrapassassem a barreira que divide o tempo e o espaço, naqueles preciosos cinco segundos parados ali olhando um pro outro.
- Vai ficar me olhando assim?- era impossível pra ele, com toda maturidade e certa experiência, decifrar aquelas cinco palavras.
Ele pensava, "isso quer dizer que devo beijá-la?", depois repensava, "não, ela só quer que eu pare de olhar feito um bobo, e dizer que vai ficar só na amizade mesmo."
Isso porque foram apenas cinco palavras e um sorriso meio torto nos lábios. Mas pra ele não, pra ele tinha muita coisa implícita naquela frase.
"Foooooooon!"
Encostou na buzina, que desajeitado,  ela se assustou, ele sorriu meio sem jeito enquanto esperavam o lanche naquele drive thru, mas ele ainda pensava naquela maldita ou bendita frase, a buzina se assemelhava aqueles sinais de escola quando se vai fazer a prova do Enem, era o sinal de início das provas, mas ele já tinha aberto o caderno de provas e a primeira questão era interpretação de texto, o que a autora queria dizer com aquelas cinco palavras? Precisava de uma interpretação autentica ou literal? Talvez teológica ou então dogmática? Concluiu que todo o conhecimento que tinha em hermenêutica era inútil se não aplicado um pouco de psicologia.
Pensou, "ela deu um leve sorrisinho, meio torto, mas ainda sim sorriso, e sorrisos são sempre ou quase sempre bons sinais. Eu pude reparar um meigo arquear de sombracelhas, e logo após ela desviou o olhar para o lado, isso mostrou um pouco de vergonha e talvez inocência ou inexperiência."
Ele continuou em sua cabeça com teorias quilométricas, pensou em astronomia, teologia, geometria, biologia, filosofia e várias outras "ias", ele que nunca foi muito crente apelou até pra astrologia, lembrou que leu outro dia num jornal os signos que eram seus ascendentes, mas faltou coragem pra perguntar em que mês ela havia nascido, prometeu pra si mesmo que ia conferir isso no perfil dela em redes sociais mais tarde. Pensou em física quântica e tentou aplicar até a teoria da desconsideração da personalidade jurídica!
Os cinco segundos viraram cinco minutos, que por sua vez se agruparam em horas. E assim se foi o lanche, se foi a gasolina, se foi a mulher com boné e uniforme na janela dodrive thru, se foi a oportunidade, se foi o desejo, se foi a garota, se foi, se foi e se foi.
Pois bem, antes de tudo ele confirmou que certas coisas nem Froid explica, depois refletindo um pouco mais ele aprendeu que se deve aproveitar o "agora", o amanhã é ilusório, daqui a cinco segundos estaremos cinco segundos mais perto do fim, ou perto do começo do fim. Viva mais e calcule um pouco menos, pois C. Lispector já disse e eu me sinto na obrigação de repetir: "Viver o hoje, nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro." Então, movimente-se!


Pedro Bragança

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